quarta-feira, 26 de março de 2008

Gota a gota


Água. Água por todo o lado. Ouço-a, impiedosa, a bater forte na vidraça, assume a forma de chuva, é indiferente à chegada da Primavera, está decidida a ficar e a demonstrar sua força. Sinto-a, ainda quente, a escorrer dos meus olhos, que ardem, a morrer lágrima por lágrima na minha boca, deixando um vago sabor a sal, que me lembra o mar. E por mar…
Arrasto-me, pausadamente, até ao lavatório. Nem olho o espelho, não quero passar pela tortura de ver o meu próprio reflexo e sentir a rendição da minha alma afixada nos meus olhos. Abro a torneira, deixo correr o líquido pelas minhas mãos frias e pálidas. Mais água… pois então água que seja.
Arranco do corpo a roupa amarrotada, atiro-a para o chão, peça por peça. Entro no duche, fecho a cortina por força do hábito e abro a torneira da água quente no máximo. Em pé, sinto o fluxo quase cortante a bater-me com força na cara, a despertar-me os sentidos, ouço o seu correr crepitante. As gotas escorrem-me para a boca entreaberta, deslizam-me pelas costas… um arrepio frio percorre-me a espinha, contrasta com a atmosfera quente daquele espaço apertado. Agora sou só eu, envolta num mar líquido de vapor quente, sou eu que me entrego à água que grita por mim, sou eu que já grito com ela.
De olhos fechados, decidida a ceder por completo ao prazer da sensação, deixei escorrer água e espuma pelo corpo nu. Senti cada centímetro que as mãos tacteavam, mãos que não eram minhas. Entrego-me. Senti lábios molhados no meu pescoço arrepiado, que estiquei para trás, que cedi. Entrego-me. Húmido, quente, molhado, suave, definido, limpo, triplo, dual, uno.
Abri os olhos, fechei a torneira, abri a cortina. Molhei a tijoleira com os pés por limpar, só depois puxei com força a toalha turca, que embrulhei em meu redor, distraidamente. o espelho, agora totalmente embaciado, mostrava uma imagem desfocada, impercisa, tremida. Olhei pela janela, e já não chovia. Eu também já não chorava. Todas as torneiras estão, por agora, fechadas.

terça-feira, 25 de março de 2008

Janela do olhar

Estou sentada no meu quarto, na minha própria cama dura, costas na parede gelada e olhar preso no horizonte cinzento, recortado por entre paredes sujas de humidade e muros repletos de musgo. Os meus pés gelam dentro das meias cujo propósito é aquecer, o meu tremer contrasta com a respiração quente, que abafo por entre os braços cruzados.
Engraçado como a vida parece congelar quando paro para reflectir, e correr normal e indiferente quando ponho alguma das minhas máscaras. Durante semanas a fio procurei desesperadamente fugir de mim. Recorri a todo o tipo de ocupações para me abstrair, corri contra o tempo para que o cansaço do meu corpo fosse mais forte que a dor da minha alma, para que o mundo me levasse na sua corrente maciça e me impedisse de cair em mim. E consegui.
Nem sei quantos dias passaram sem que realmente usufruísse deles. O quotidiano girou à minha volta num compasso de sons díspares, cores tremidas, sensações deturpadas e sentidos entorpecidos. Quando chegava a noite o cansaço era tanto que a consciência apagava mal a cabeça batia na almofada. Vivi como fantoche, sorriso nos lábios e olhos turvos, palavras ocas em frases vazias, humanidade gerida em função do rendimento. Escondi a dor por detrás de ovos de chocolate e pregadeiras de feltro colorido. Apaguei a mágoa com recurso a música talvez alta demais. Calei o grito que crescia na garganta correndo quilómetros. Ainda assim, cheguei a chorar. Nem a isso me permiti. Mortifiquei as lágrimas em lenços de papel áspero, mas não consegui disfarçar a vermelhidão dos olhos. No entanto rodeei as perguntas que pediam resposta sincera recorrendo a substitutos baratos e credíveis. Como sempre, deixei-me enterrar um pouco mais neste buraco que eu própria escavo.
Agora, tal qual estou, calma, lúcida, olhando distraidamente pela janela, fragmento-me em constatações. O facto de ser como sou condena-me a esta solidão acompanhada e, por mais que a tudo me entregue, apenas uma coisa será capaz de preencher este vazio cá dentro, que me consome o calor.
Roo a tampa da caneta, desvio o pensamento e finto memórias felizes. Lá fora não há movimento, nem barulho. Em meu redor, rostos familiares fitam-me acusatórios, consigo sentir nas suas expressões estáticas um recriminar fundamentado. Não preciso de palavras. Eu sei quem sou, como sou.

domingo, 9 de março de 2008

Ampulheta


O meu passado usa lentes. Entretanto, sou eu quem vive assente numa imagem do real que reflecte, que refracta, que é difusa, desfocada, às vezes escura, outras de um brilho tão ofuscante que encandeia. O meu passado usa lentes, e eu não sei até onde é verídica a noção do que vivi, não consigo definir a ténue linha que separa o raio que chegou e aquele que na verdade interpretei e assumi.
Hoje, o meu presente é cego: guia-se por palpação num terreno que desconhece, tendo por princípio bases que oscilam como areias movediças, que ora sugam lentamente mas num compasso afinado, ora parecem inócuas e até apetecíveis. Entretanto eu perco-me, divago, desespero. O tempo escorre pela vidraça; observo, melancólica, as marcas que cada gota deixou à sua passagem. Suspiro, como eu suspiro. Do fundo de mim vem uma força que dispensa dimensões, que deixa o tempo para quem insiste em usar relógio, que se ri da relatividade absurda do espaço. As lentes do meu passado foram embaciadas pelo ar quente que expirei, hoje olho-as, penso nelas e, deixando-me guiar pelos sentidos, faço nelas desenhos irregulares com o dedo. Mais ar quente. A lente cada vez mais baça e eu cada vez mais perdida.
No fundo, não sei bem do que reclamo. Se o meu passado usa lentes, o da humanidade cedo acusou diagnóstico de cegueira. À minha volta vagueiam, errantes, almas tremidas que sofrem de miopia, cataratas, estrabismo, conjuntivite. De quando em vez lá surge quem bem veja, ou tenha recorrido aos óculos. A maioria simplesmente ignora a doença que os consome e degrada.
Não sei que luz é esta que hoje chega, que amanhã iluminará, e que já ontem cá esteve. Mas, acima de tudo o resto, essa luz está cá, e sou eu quem decide se o seu propósito é iluminar, guiar ou simplesmente estar presente, esperando que eu dela necessite.
E agora cá esta ela. Essa ampulheta de lentes que me olha e sorri, que tem dentro uma massa heterogénea hipnotizante indefinível. Afinal só tinha visto a parte de baixo. O meu futuro, felizmente, também usa lentes!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Lisboémia, te venero


Porque não me contento em ter o que vejo, quero aquilo cujo acesso seja restrito. Quero uma obsessão que puxe por mim, que me obrigue a lutar, que me prenda, que me amarre, que me leve à loucura incomensurável e me faça desesperar.
Amo o gosto doce e breve do momento que foge mas hipnotiza, venero o gesto que procuro durante horas e só surge quando a minha força vacila, jogo com o envolvente monopólio das sombras dançantes, com o toque macio do veludo morno, vagueio errante por entre brumas que escondem corpos amorfos, deixo-me envolver pelo aroma inigualável de essência indecifrável e mergulho de cabeça em labirintos cuja planta se assemelha à minha Lisboa.
Diz que são todas iguais, as cidades. Não há alma como a dela, não há fado como o seu, as pedras da calçada daqueles trilhos que murmuram, olhos no Tejo que corre lento e narra para quem o quer ouvir; o meu sangue corre no toque de cada guitarra vibrante, no travo de cada gole de tinto, escorre para fora de uma clepsidra que já transborda… Esta Lisboa que dorme enquanto os seus eléctricos passam, vazios de quem os entenda, cheios de quem os empate… Lisboa não é do mundo, porque o mundo jamais a perceberá, mas não há dúvida de que o mundo é seu, porque só o suspiro da sua saudade move gerações, porque ela vence o tempo.
A minha voz é a do fado, a minha altura a do castelo, e se me queres entender não procures explicar-me… devolve-me a doçura dos colos pálidos a descoberto, traz-me de novo o cabelo revolto que, solto, tapa um pescoço que implora sentir o teu beijo, o teu respirar… A boca cala segredos que chocariam o mundo, mas que importa…
E com isto perdi na meada o fio que procurei seguir… também, o que interessa isso, quem me lê sabe que estas páginas soltas não pedem numeração nem têm ordem de leitura… Diz que amanhã reina Valentim… não creio. Mas se falamos de amor, a palavra sacra que desliza nas minhas mãos por entre letras que a dissimulam mas estremece na minha boca só de pensar no quão ousado seria pronunciá-la em vão, se falamos de amor, então que venha um Casanova, um Cagliostro. Que reine então a supra alquimia, o charme irresistível do desejo avassalador; há muito Romeu no mundo, e dessa história já eu conheço o fim.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ermo meu


Passam correntes fortes e avassaladoras, marés turbulentas e incontroláveis, ventos frios e violentos e tempestades de luz, mas para me tirar desta luta tem de vir algo bem maior, venha, se ousar, a morte ela mesma, com todo o seu esplendor glorioso (ou excesso de confiança) de quem não conhece limites, ela que me olhe bem dentro dos olhos e veremos então quem vence…até lá subirei certamente aos céus, e há a possibilidade de que volte a cair no mais profundo abismo, mas serei eu quem manda, serei eu a cerrar as pálpebras e concentrar-me na minha força até ver a luz… Até lá reino eu!
Bate a carvão, este que jaz em meu peito quente, fumega, aquece, arde…combustível fóssil, podem muitos dizer. Pois é isso mesmo, é combustível, é fonte de energia, é força, é potência, é motor! Se é fóssil? Também o é, sim, com orgulho. Já não se fazem destes. Este que pulsa cá dentro sem pedir autorização nem dar justificações é real no presente e imagem viva do passado, é pedra dura que se deixa furar por água mole se ela souber onde bater, é lenda, é mito…é mistério explicável nas profundezas de si mesmo. É único, e é meu.
Ama-me, mas não peças o que respira por sístoles e diástoles, não exijas para ti o que jamais te poderá pertencer. Não terás a chave da chama da minha alma, porque nem saberias onde a procurar, e eu jamais a cederia. Faz-me amar-te, e terás o meu pensamento. Conquista-me, hipnotiza-me, enlouquece-me, dar-te-ei acesso aos recantos mais remotos da minha mente, se souberes interpretar os enigmas deste labirinto épico. Mas nunca, jamais, sequer ouses pensar em apoderar-te do meu coração, pois é certo que se o fizeres me matarás...se antes eu não o fizer a ti.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Prisioneira em mim


Às vezes pergunto-me porque é que a minha cabeça parece um novelo tão emaranhado em si mesmo e repleto de nós que me impede de ver a vida com clareza e objectividade, que me sujeita a toda a hora a um bombardeamento incansável de ideias e pensamentos que não pedi e que tanto me perturbam, que me atira sem dó nem piedade para um abismo que tem um novo fundo de cada vez que nele caio, que me consome lentamente de dentro para fora e que me faz perder a fé em tudo.
Já não sei quem sou, o que quero, pelo que luto. Já nem sequer sei se vale a pena lutar. Esta Terra que dizem ter gente a mais assemelha-se a um planeta fantasma no qual me vejo sozinha, densa, complexa, triste, rodeada no entanto de todo o tipo de bonecos animados que parecem viver, de pálidos espectros do que seria um povo, de todo e qualquer apetrecho mecânico, inventado e inútil, que cobre a pureza do natural e o transforma num labirinto metálico ensurdecedor. Há à minha volta um universo criado com base nos caprichos de mentes anónimas que cobre a realidade que nunca verei. Não sei de que cor é a terra por baixo na casa onde vivo, não sei qual a textura do solo sob a cama onde durmo, não sei que cor tinha o céu antes de tanta substância se ter acumulado no ar… no fundo só tenho acesso ao monopólio criado por antepassados impossíveis de imaginar, a camadas e camadas de uma evolução que não sei até que ponto pode ser considerada positiva.
Algo no meu ser é incompatível com estas amarras que me prendem, o meu éter, cego, urra de dor e raiva por estar preso a este corpo, porque este, com todas as suas limitações inatas impostas por uma sociedade fantoche, é uma cápsula corrosiva para a luz que teima em soltar-se e ser livre. Filosofia ingrata, esta; como dói pensar, como é dilacerante este raio que me fulmina de cada vez que dou asas ao meu espírito, como sou brutalmente esmagada por essa águia de garras afiadas que me toma como potencial inimigo antes de ouvir o que tenho a dizer. A racionalidade é o obstáculo que se prostrou no meu caminho e teima em não sair de lá.
A minha essência é grande demais, não cabe na forma humana que me foi dada sem ao mesmo tempo conseguir libertar-se dela. A luta travada em mim é feia e mata-me pouco a pouco, não há como fugir, não estou apta a negá-la, simplesmente toda eu sou contradições e controvérsias, toda eu sou feita para viver num mundo que não existe, o meu molde não encaixa num planeta que é hoje uma gigante implantação de silicone, sem que ninguém dê conta. Sou prisioneira em mim, e, se ter de viver adoptando uma máscara para cada situação já não era castigo suficiente, vem de dentro de mim a força que me impele cada vez com mais intensidade a explodir num milhão de estrelas e ser, de uma vez, o que me diz o instinto.
A minha cabeça lateja de tanto pensamento sobreposto, as veias dilatam, o cérebro entrou em efervescência, a visão, turva, pede a escuridão externa e interna, uma paz final, talvez merecida. O meu coração bate num compasso irregular, indeciso entre o pêndulo constante, a onda veloz ou a pluma sem densidade. Ambos me pedem tréguas, ambos me exigem uma força e coragem que não sei onde procurar, já nenhum aguenta esta prisão que assume sorrisos e lágrimas, amigos que nunca foram e rotinas de morgue.
Choro numa tentativa de alívio, alio o isolamento físico ao psíquico que sempre vivi e procuro acalmar…mas não dá. A tensão cá dentro cresce e ameaça rebentar em meu peito. Quem dera não me ter entregue a esta humanidade que é cada centímetro de mim, quem dera nunca ter amado e não estar agora nesta posição que não me deixa desistir, não por mim, mas pelos que de mim precisam…pois agora não haveria amarra que contivesse o meu espírito inquieto. Alguém se enganou quando deu vida à minha essência neste contexto, eu enganei-me quando ousei criar laços de amor… terei força para criar um mundo novo?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Coração de aço


Já não há quem sorria na rua. Parece incrível, mas de facto o universo cinzento maquinal que nos rodeia, com o seu urro de besta ensurdecedor reproduzido nos mais diversos objectos e o seu semblante frio de ferro duro e aço inoxidável, conseguiu consumir a alma da gente. Já não há risos espontâneos, olhares expressivos e gestos amáveis. Agora há relógios, fumo e alcatrão, há botões e massas compactas num transe nebuloso. A humanidade morreu.
Já não sei o que é feito do verde, o som do mar é remoto, o céu que me cobre a noite perdeu há muito as estrelas e tenho na lista telefónica mais números que amigos. Já não é outra mão que agarra a minha, é provavelmente uma mala com objectos pessoais, mesmo que eles nada signifiquem, ou um qualquer prolongamento mecânico da mesma (sendo este um telemóvel, um teclado de computador, um leitor de mp3 ou uma batedeira). Encontro mais frequentemente os meus lábios em busca de um frio e baço copo de água ou qualquer outro elemento líquido que seque minha boca do que procurando relembrar o calor do toque provocado pelos teus.
Tenho nojo desde tufão tecnológico alimentado já não por electricidade ou baterias, mas por corações que batem sempre ao mesmo compasso, por almas desertas de sonhos e desejos, por corpos cientificamente vivos mas mortos para a vida.
Procuro conforto na tinta espessa que escorre da pena quando a seguro, quente, entre os dedos, passo a mão pela textura irregular da folha de papel e o seu cheiro característico faz brotar lágrimas em meus olhos. Afinal ainda há cá dentro o inexplicável, mais que não seja a saudade e a memória. Afinal, mesmo que fraca, ainda desejo veementemente resistir e lutar. Não quero mais explicações metodológicas, estou farta de ver a vida representada em números, não quero saber dos átomos que constituem as moléculas do ar que respiro. Será que ninguém percebe que a beleza da vida está no inexplicável, na carícia do acaso, no doce toque do inesperado que causa arrepio?
Agora, pensado bem, talvez faça alguma coisa. Vou correr para a janela estreita, abri-la de par em par e gritar a plenos pulmões “Há aí humanidade?”. Mesmo antes de o fazer já ouço o eco da minha voz…haverá alguém na rua?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Mar eterno


A brisa moldava-me o cabelo e invadia-me a alma enquanto calmamente caminhava pela areia seca. Descalça, conseguia sentir a textura fria dos seus finos grãos entre os dedos, marcando a minha breve passagem.
E então a mudança. A areia era agora molhada, mais dura e ainda mais fria. Sentia a humidade ao pôr o pé no chão, mas não hesitava, não tinha porque o fazer. À minha frente, o ruído do mar era ensurdecedor, aquele estrondoso e fascinante espectáculo prendia-me, estava de braço dado com as ondas, que, poderosas, rugiam e estalavam. A água, gelada, molhada, congelava-me os pés e os tornozelos, podia sentir a espuma branca dissolver-se na minha pele.
Como uma só alma, eu vivia e era a onda. Desinibida, abri a boca e rugi violentamente, libertei toda a fúria, corri desalmadamente e por fim morri na areia, dissolvendo-me e trespassando os seus finos grãos até finalmente desaparecer. Mas o meu impulso gerou outras ondas, tão fortes como eu, e assim de facto nunca morro, nunca acabo, nunca termino, apenas renasço, a mesma alma noutra matéria, o mesmo espírito indomável a admitir uma nova forma, a mesma frescura e sabedoria a percorrer o mundo inteiro aberta ao desconhecido, embalada pelo som harmónico do relógio da vida. Por vezes sorrio, amanso, relaxo, brilho e deixo que me encontrem, que me testem, que me usem. Outras expludo, torno-me uma fera feroz e ameaçadora, protejo-me fechando-me em mim mesma e semeio o pânico. Mas a minha essência, o meu ser, o meu coração, esse abriga-se na escuridão das profundezas desconhecidas e inexploradas, às quais nenhum Homem jamais chegará.
O brilho nos meus olhos é o mesmo que o da tua superfície, as ondas do meu cabelo são os raios de sol que te ilumina, e os meus lábios o túmulo sagrado dos teus segredos mortíferos e inatingíveis.
Amo-te, respeito-te, sinto-te, compreendo-te, perco-te e somos um. Neste momento, sei qual é o meu lugar, sei onde pertenço, sei porque me moldo e sei porque sou inesperada. Sou água. Sou corrente, onda, mar, túnel, sou gota, partícula, molécula, sou toda, completa, inteira, sou enigmática e mortífera, sou paixão e ódio. Sou mar com todas as forças que o meu corpo tem. Sou água!
Abri os olhos. Estava suada, ansiosa, ofegante. Olhei-te, admirei-te, senti-te. Despi-me. Rasguei de um puxão o vestido de linho branco, solto e leve que me cobria e, distante, atirei-o para longe. Sem medo corri para o mar, solta e deliberadamente, mergulhei espontânea em ti só porque sim, só mesmo porque te queria integrar, sentir teu esplendor. A temperatura gélida arrepiou-me o espírito mas deu-me vida e movimento, abri os olhos e acelerei mais e mais, desci mais fundo e fui mais longe ainda. Senti os meus pulmões lutarem desesperados por ar ao mesmo tempo que toda eu o renegava, sentia-os explodir de tensão no peito, mas não queria saber. Quando senti que era o fim, que ia desfalecer e encontrar a escuridão, meu pescoço rasgou-se de ambos os lados, como cortes feitos por garras afiadas, e de súbito estava aliviada e podia de novo respirar. Olhei-me, e entre meus dedos formaram-se membranas finas e translúcidas, o meu corpo assumira um tom azulado, os meus cabelos dançavam alegremente ao ritmo da corrente; os meus olhos já não ardiam, já não desfocavam, pelo contrário, a minha visão era agora mais límpida e precisa.
Estava livre, finalmente; solta, finalmente; viva, finalmente. Cheguei ao fundo e rocei com força na areia e nas algas verdes só para as poder sentir, e seu toque parecia seda macia e agradável. De um impulso subi o mais rápido que pude, e em instantes meu corpo harmonioso eclodiu da superfície e dei uma roda perfeita no ar, rodeada de uma chuva de grossas gotas cristalinas que admitiam efeitos de cores brilhantes com o reflexo do sol no céu limpo.
Quando de novo cai na água, vibrei. Não havia à minha volta tempo, espaço ou humanidade. Era eu e o mar, era eu o mar. Imortalidade e solidão eterna, alívio final para o sofrimento efémero.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Dá-me a tua mão



Estende-me a mão, e ler-te-ei a sina. No entanto, não a olharei sequer. Não me interessam traços longos, curtos, fundos ou superficiais. Não quero saber do cruzamento de linhas. Ah, abstracções mentais, doces ilusões... Não é esse o meu fado.
Estende-me a mão e agarrá-la-ei. Estende-ma, e verás como juntos somos capazes de compactar o destino numa caixinha de necessidades só nossa. Os búzios não são para ser atirados, são para ficar caídos na areia, são para sentir o mar, são para ser vistos e cheirados, para que alguém lhes pegue e os encoste ao ouvido apurado, com a curiosidade ingénua de quem teima em acreditar em mitos.
Estende-me a mão, mas não me peças para deitar cartas, porque não gosto de jogos de sorte; para mim há um jogo muito maior em curso, mais profundo, mais bonito. Eu sou uma carta, tu és outra. Nem sei em que mão estou, nem qual o meu valor, naipe, porque não imagem… o que interessa isso afinal? Serei jogada não sei por quem, num jogo sem fim previsível. O que me interessa a vitória?
Dá-me a mão, dar-te-ei em troca calma e paz, sem horas de meditação nem abstracção total, física, material. Não temos tempo para isso, o que passou não volta mais, de que nos vale tudo saber, se quando acordarmos do nosso transe não tivermos tempo para deixar testemunho a quem dele precisa?
Vá lá, estende-me a mão. Não tenhas medo porque não faço exorcismo, nem perderei horas com rituais mágicos. Gosto de runas, mas não atiro pedras. Creio em algo, mas não to direi, porque isso só a mim diz respeito. Só quero a tua mão.
Se ma deres, terás o teu fado. De mãos dadas correremos o mundo sentindo a cada passo dado, recordando a cada momento vivido, imaginando cada imagem que virá. Dá-me a mão, e prometo que no silêncio desse toque banal e íntimo descobrirás o que és, saberás o que eu sou, sem mistério, sem barreiras. Amarás em surdina, de olhos fechados, terás o mundo inteiro preso na mão aberta, pássaro livre que não foge da gaiola dourada sem grades nem portas, porque está lá de sua própria vontade, e isso é todo o seu propósito.
Dá-me a mão e mais nada te pedirei, porque mais nada terei a pedir. Seremos passado, presente e futuro; teremos tudo, e quem é pleno tem o destino traçado pelo ar que respira. O meu fado és tu, porque o meu coração dita que assim seja, e porque o seu bater é sentença final dum julgamento que é a vida. Crês na sorte? Eu também. Ainda queres um intermediário? Dá-me só a tua mão…


(Ontem tive a feliz surpresa de saber que, afinal, existe um universo de leitores da minha prosa ao qual eu era totalmente alheia. O meu enorme e sincero obrigada. Escrever dá um prazer muito maior quando se sabe que alguém aprecia as nossas palavras, mais ainda se esse alguém nos for estranho. Hoje posso dizer que um pequeno vazio dentro de mim foi preenchido por uma luz bem intensa. Farei o meu melhor, prometido.)

domingo, 27 de janeiro de 2008

Boémia


Dois cálices de vinho tinto a meio, entrelaçados, embalando uma conversa com intenções ocultas por detrás de palavras caras bem escolhidas.
A cera quente escorre pela vela esguia, a luz trémula da chama cintilante é reflectida nas paredes, que calam segredos e não julgam actos.
Música baixa, som harmonioso de piano e violino em sinfonia calma mas forte, num compasso com passos firmes de saltos altos. Arrepio quente espinha acima, olhar escaldante alma adentro.
Uma rosa vermelha em cima de uma mesa de madeira escura envernizada, espinhos bem afiados, folhas com orvalho fresco e puro, uma pétala caída, isolada, esquecida; ao lado um prato de loiça com bombons retorcidos de chocolate negro.
Uma mão feminina esticada para esse mesmo prato, longos dedos brancos e unhas pintadas com verniz bordeaux, ele sente na boca carnuda o prazer amargo do chocolate a derreter lentamente.
A noite é negra como breu, a lua cheia e bem redonda brilha alto, prateada, líquida, serena, vista da janela por entre os pesados reposteiros de veludo encarnado.
O coração bate forte no peito, o corpo é invadido por desejos avassaladores, a alma pede um consolo que não o pensamento, a vista já turva, a respiração torna-se mais ofegante a cada segundo. As mãos cedem ao que a mente já não controla há muito, uma alça preta de vestido de cetim escorrega por um ombro arrepiado, ao mesmo tempo que se ouve, abafado, o som seco de uma camisa branca atirada para o chão. Louca lascívia, santa boémia, sonho, realidade…quem deseja não resiste à tentação.
Nada mais que dois corpos e uma mesa na enigmática noite; um cálice observa, pesaroso, os estilhaços do outro para sempre perdido, afogado caco por caco numa mancha irregular que denuncia a luxúria de quem não bebeu o liquido derramado.
Se a música ainda toca, já ninguém ouve; se a lua ainda brilha, ninguém a admira; a pétala caída já não está isolada. My funny Valentine. Sweet comic Valentine…

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Máscara


A minha mente assemelha-se, de certo modo, a um Carnaval que se aproxima a passos lentos e cautelosos: tem faces escondidas atrás de máscaras bizarras, tem palhaços mal caracterizados que não se percebe se riem ou choram, tem um toque de mistério profundo e estranheza subtil misturados com tudo o que, de tão ordinário e pestilento, os neutraliza e quase torna imperceptíveis.
Sou embalada numa melodia que não distingo entre o popular brejeiro e o alegre ritmo quente, deixo-me ir num cortejo que mistura políticos e travestis, samba e Veneza… procuro um espelho que não distorça, quero ver se sou uma criança que, pela primeira vez, veste o traje da princesa que de facto é, ou se sou, na verdade, uma adulta frustrada que, uma vez por ano, se aloja no disfarce daquilo que sempre quis ser.
Ouço os tambores e os risos, vejo as serpentinas brilhantes… sorrio. Mas depois vejo as perucas e as maquilhagens, ouço os impropérios, sinto na pele os abusos… fecho-me de novo.
A minha mente é afinal tão nacional como o Carnaval português. Ainda questiono o positivismo daí proveniente. Arrisco dizer que me sinto ao mesmo tempo o esplendor e potência do meu país, e o desânimo e falta de iniciativa da minha nação. Portugal nunca será mais do que aquilo que dele fizerem os portugueses. Eu também nunca serei mais do que aquilo que tiver forças para alcançar. Tiro a máscara. De vez. Atiro-a para longe. Será agora?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Dualidade


Cega de raiva e de dor corri para o exterior daquele espaço limpo e arrumado, cuja máscara decente e cautelosa protegia, tapava por completo a sua obscenidade, o seu odor repelente, o seu real propósito obscuro e ilegal. Apropriei-me de um espaço ao qual, na verdade, eu jamais poderia pertencer, tentei sem resultados adaptar-me ao sistema falhado.
Já não dava para aguentar nem mais um segundo. Fugi para lado nenhum, na rota errante dos vagabundos perdidos e dos sábios desesperados. Tomei o atalho dos pobres de espírito e percorri velozmente a viela dos cruéis. Quando dei por mim tinha chegado, imune, ao paraíso das sombras.
Ali nada existia, nada era, nada vivia, não havia mundo material. Vi monstros, bruxas, dragões, vampiros, dinossauros. Vi cavaleiros, duendes, fadas, heróis e elfos. Se vi Homens, não me dei conta. Vi a água da vida eterna, a pedra filosofal, o pote de ouro do final do arco-íris e um bando de gambozinos voando. Nada é verdade. Vi Deus, o céu e os anjos; vi Lúcifer, o inferno e as bestas. Não há de facto separação, nem muros ou barreiras, tudo é um todo, junto, único. Real ou imaginário estava ali e era um.
De repente senti-me desfalecer, como se finalmente eu, a falha sem elemento dual daquele mundo, tivesse sido encontrada e precisasse de ser retirada dali antes que fosse tarde demais. Quando acordei estava deitada na areia, as ondas lambiam-me já os pés descalços. Estava só numa praia deserta. Levantei-me e segui. Não tinha destino, não havia para onde ir. Ia começar a minha vida do zero com a certeza que não mais voltaria a confiar, com a certeza que quem constrói o destino sou eu.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Passado


Amo o que já foi. O passado é para mim fantástico, brilhante, magnifico, perfeito, simplesmente porque, e tal como o próprio nome indica, passado está, já foi, não volta mais, ocorreu e terminou.


A dor que senti ontem já passou; dela hoje apenas resta a memória. A paixão que dantes senti invadir-me e tomar-me de todo hoje apenas deixa ténues marcas da sua avassaladora passagem. E, tal qual estes, todos os outros momentos estão ultrapassados, vividos, corridos.


Sou, no fundo, uma espectadora inerte na margem de um rio que é a vida: o rio passa, as corrente fluem, a água escorre pelos meus dedos e eu posso vê-la, tocá-la, senti-la. No entanto ela vai e não volta mais, a gota que passou seguiu o seu rumo e não parou por minha causa, eu vivi esse momento se quis, se o deixei de lado não o terei mais.


Amo o que já foi, simplesmente porque já não é e não mais o será.




(Com um enorme pedido de desculpas por todo o tempo em que a minha palavra esteve ausente)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Quero


Hoje dou por mim a pensar naquilo que realmente quero.
Quero passear pela praia, quero sentir a areia solta entre os dedos dos meus pés, quero sentir o toque arrepiante da água gelada.
Quero correr com o cão por relvados desertos e infinitos, sentir o frio do ar bater-me na cara e as mãos congelarem.
Quero chegar a casa e deixar-me cair no sofá, quero sentir o macio dos lençóis da minha cama, quero ouvir não mais que a chuva a bater forte na vidraça.
Quero tapar-me com uma manta, ligar a televisão e ver o meu filme preferido vezes sem conta, enquanto devoro uma tablete de chocolate.
Quero passar pelas pessoas e ser só mais uma, quero sorrir para alguém e ser aquela, quero simplesmente olhar e não ter de falar.
Quero vaguear por ruas sem fim questionando-me acerca da vida, sem saber quem sou, de quem sou, se és meu, sem saber para onde vou ou por onde quero ir.
Quero estar onde estás, quero ser quem sou, quero amar e viver, quero aceitar a vida como uma aventura.
Quero procurar palavras e não as conseguir encontrar, quero tentar escrever e perceber que me falta a inspiração, quero sentir o vazio da ausência não sei de quê, quero preencher esse espaço de luz.
Quero abrir o livro da minha vida e arrancar páginas amareladas, quero relê-las e sorrir, quero colar pedaço por pedaço, fazer montagens e cortar imagens, quero sublinhar momentos e riscar presenças, quero acrescentar parágrafos e tirar vírgulas.
Quero ser humana e sentir com cada pedaço de mim, quero chorar, quero rir, quero vibrar, ansiar, sofrer, quero que doa, que arda, que custe, quero sentir-me só para que me possa entregar sem limites.
Quero ouvir o som da minha própria melodia e dançar num compasso desnivelado, quero que ninguém veja mas que todos saibam, quero não ter de o dizer mas só de o sentir.
Quero deixar tudo para depois e ter o agora completamente preenchido, quero estar feliz e fechar os olhos à ignorância, quero deliberadamente virar costas ao passado e senti-lo perseguir-me como sombra.
Quero parar de ser corrente errónea e virar-me para o mundo, quero chocar de frente com a realidade e vergar sem sentidos face à sua força imensurável.
Quero saber que mesmo assim não morro, quero continuar a ser eu contra tudo e todos, quero sentar-me no meu baloiço de madeira e sentir os meus pensamentos girar, quero o sobe e desce de sensações que não é mais que eu mesma.
Quero a pulsação da lua cheia nessa noite que é só nossa, quero estar sem ti para sentir a tua falta, quero que o sol nasça e brilhe alto no céu, bem longe de mim, ao alcance de um pensamento.
Quero tudo. Quem não quer tudo pouco mais quer que nada. Mas isso apenas faz dessas pessoas desafios maiores.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Apogeu


(Para todos aqueles que amam. Para os que apreciam o que digo. Para quem se reflecte nas minhas palavras e percebe cada momento. Para os que não têm vergonha de gritar ao mundo que estão apaixonados, e que o seu coração bate mais alto. Não preciso de dizer nomes. O meu enorme obrigada.)

Sobre a tua pele molhada passo lenta mas seguramente a minha mão ansiosa, que se perde por entre o teu corpo definido e arrepiado. O teu cheiro forte e dominante invade as minhas narinas e preenche todo o meu ser. É incontrolável. Quero-te neste momento mais que a qualquer outra coisa. Deixo-me levar pelas ondas indomáveis de cada segundo que passa, sabendo que não te possuo, que nem sequer te conheço, mas é isso que me interessa, que me agrada, que me excita. Não sou tua, não és meu, não somos almas gémeas porque elas são mitos e nem existem neste momento palavras a trocar. Mas, aqui e agora, somos um e completamo-nos. Só te quero a ti e podia permanecer neste fogo por uma eternidade sem que me sentisse vã.
A tua respiração quente e ofegante no meu pescoço faz-me sentir viva e provoca-me propositadamente. Passo a mão pelo teu cabelo sedoso e sigo por tuas costas de forma sugestiva, sabendo que não eras indiferente a este toque e que estavas cada vez mais ligado a mim. Tinha os olhos fechados e nem me dei conta que o tinha feito. Estávamos presos e queríamos apenas que essa ligação se apertasse mais e mais. Quando os teus lábios encontraram os meus e pude por fim provar o gosto intenso da tua boca todo o espaço que me rodeava desvaneceu, o relógio parou, a vida caiu, rodopiando sem fim numa espiral gigantesca. Éramos só eu e tu cegos de paixão, girando num universo vazio e alucinante que nos mantinha suspensos naquele turbilhão de sensações ao mesmo tempo nítidas e desfocadas. Entre nós não havia segredos nem dúvidas, não havia espaço nem hesitação. Os únicos mistérios eram apenas a alma e o pensamento.
Atingimos o auge quando as forças já mal nos permitiam respirar. Se já nada existia á nossa volta, foi a vez de nós próprios explodirmos numa chuva brilhante de partículas infinitas e incandescentes, num vibrar forte e permanente que nos abafava e consumia, num grito mudo entoado num só tom. E depois a calma, o descer lentamente ao campo terrestre que deliberadamente abandonámos para nos podermos entregar um ao outro, sem culpa, sem pudor. Caímos inertes num sono profundo de calma e paz, largámos as mãos que unidas nos ligavam, e afastámo-nos cada um para o seu mundo, mas não sem antes trocar um último olhar que tudo disse, que tudo significou. Nessa noite dois mundos colidiram.
Quando acordámos foram de novo os teus olhos que me prenderam. Perdi-me nessa íris que ainda não tinha descoberto, que não me permitia desvendá-la. Não falei porque não havia necessidade, porque os meus lábios se cerraram e a minha garganta, solidária, secou. Sem eu querer, nasceu em mim algo que tive até medo de nomear, e apenas o teu abraço quente e seguro fez com que meu pensamento inquieto regressasse á paz bem merecida. Não me largues nunca e de mais nada precisarei.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Murmúrio de silêncio


De novo cá. Sei, e é isso que me consola, que não sou de modo algum a única que persiste neste eterno ioiô de emoções que me empurra violentamente para os mais profundos confins com a força bruta da gravidade e do mesmo modo e com a mesma rapidez me impulsiona para um tumultuoso paraíso superior.
É nesta segunda fase do ciclo que me encontro neste momento. A quantidade e frescura do ar que me invade as narinas enquanto cedo a este salto que sei ser efémero é suficiente para me libertar de todas as correntes. Fecho os olhos e deixo-me guiar. Ainda não percebi bem se gosto ou não de me apaixonar. Sou cobarde o suficiente para morrer de medo de o fazer, sou piegas para enfrentar de frente a dor que me abala quando o fogo da paixão cessa e os conflitos vencem, atiro-me de cabeça com a maior facilidade e torno-me o reflexo da própria felicidade quando o coração aperta e bate mais forte, os olhos brilham e o corpo treme.
Mais uma vez não sei o que fazer. Estou absurdamente feliz numa solidão acompanhada que não se refere ao mundo mas somente a ti, as palavras voltam a morrer na minha boca quando te tento dizer o quanto significas. E, do mesmo modo, os olhos não mentem, os actos não escondem, a terra que gira à minha volta orienta-se simplesmente por um eixo que és tu.
Estás tão perto e tão longe ao mesmo tempo que não quero estender a mão por temer simultaneamente poder tocar-te ou agarrar o vazio causado pela tua ausência. Quero-te já, agora, neste momento e para sempre, quero-te longe, distante, alheio a mim e ao meu mundo, que era pacato antes de vires.
Vem, fica, prende-me, ou então vai, por favor desaparece. Já disse vezes sem conta que me perco por mim mesma, como sou capaz de permitir que me confundas mais ainda?
Gosto, não gosto, não sei. Aliás sei. Sei que gosto, e muito, mas que não gosto mesmo nada de gostar tanto. Sinto-me tão pequena e tão confusa quando te vejo, tão fraca e vulnerável relativamente a uma massa compacta de gente feliz e confiante. Mas surges e toda essa gente desaparece, fico eu no céu e o resto do mundo onde quiser, mas não perto de mim, não num horizonte que me afecte e atinja a minha felicidade. Sinto-me humana…e perdida. Exposta e invisível, óbvia e complexa. Tudo depende dos olhos que me penetrem, das forças com as quais me depare, da atenção de quem me observe. Sou o tudo e o nada. Serei plena? Não. Sou apenas extremista, e talvez pense demais…

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

De profundis amamus


Ultimamente ando sem inspiração. Por alguma razão, que me passa totalmente ao lado, quando me sento para escrever e pego no lápis as ideias fogem. Peço, por isso, desculpa a todos os que gostam das minhas palavras.

No entanto, gostaria de fazer uma homenagem a um grande senhor, Mário Cesariny, apresentado um poema que me derrete completamente.

Até sempre, Mário!



De profundis amamus


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Desespero


As horas passam lentas por mim. Uma, duas, três… vejo os ponteiros do relógio girarem lentos numa tontura eterna e sincronizada que de dança tem apenas o compasso, cujo ritmo é igual ao do meu coração.
Paro. Nada me parece suficientemente produtivo e útil para aqueles segundos que passam e que me fogem entre os dedos sem que tenha oportunidade de os agarrar. Ler custa, as letras são pequenas demais, atropelam-se, enrolam-se, entorpecem os meus sentidos. Ouvir cansa, enche, aborrece e enerva, com todos aqueles sons misturados num grito terrivelmente desafinado que se assemelha a um conjunto de objectos cada um a gritar para seu lado, acompanhados por uma voz que parece suplicar por silêncio. Observar é pouco, conheço cada forma, cada cor, cada sombra, nada é novo, apenas o meu tédio perante tudo o que surge. Volto a olhar o relógio… mais segundos que vão e não voltam, mais minutos que passam por mim e me gritam adeus, como se se estivessem a despedir de uma desgraçada que jamais terá sucesso numa vida de oportunidades.
Deito-me e fecho os olhos, sinto que me falta alguma coisa e a garganta aperta. Abro os olhos e volto a sentar-me, não há tontura, apenas a ilusão por breves momentos que tudo é como de costume… até que a minha alma desesperada pede ansiosa algo mais.
No fundo finjo. Sei o que quero, sei o que sinto, sei de onde vem o nó horrível que me aperta a garganta. Apenas o evito, o renego, apenas me dou ao luxo de lhe virar as costas e tentar ser mais forte, apesar de saber que é totalmente impossível, que ele me apanhará sem problemas, mais tarde ou mais cedo. Posso fugir, mas não me posso esconder de mim mesma, do meu maior pesadelo. A tua voz ressoa nos meus ossos como um tilintar de sino de igreja, cerro os olhos com força e vejo os teus a mirarem-me do escuro, afasto-os com mais força ainda e deparo-me inevitavelmente com o teu sorriso. Não me persigas, desaparece. O teu mundo e o meu simplesmente não encaixam. Será que o meu alguma vez virá a encaixar onde quer que seja?
Saio porque não aguento mais esta sina. Corro veloz nas ruas que mal vejo passar por mim, grito ao vazio e tapo as orelhas porque não quero resposta. Caio, rasgo a roupa que não sei porque tenho vestida, levanto-me e continuo a correr para o nada, por nada. As lágrimas nublam a minha visão e aquecem-me, perco o fôlego e mal posso respirar, deixo-me derrubar desamparada não sei bem onde e fico lá, deixo que passem todos os meus autocarros perdidos por natureza própria, como alguém bem mas sábio que eu teve a sensatez de dizer.
Como pode o nada doer tanto, mas que vazio é este que me enche de tristeza, de dor, de mágoa, de aflição? E que coração o meu, que alma, que sina, que destino, que força é capaz de me guiar sempre na direcção errada, qual é o principio que me indica sempre o caminho que eu não devo seguir, porque é que acabo agarrada sempre aquilo que sei que perderei, aquilo que me fere, que me rasga por dentro com unhas e dentes e destrói o que lá estiver? Grito mais e mais, sem forças desespero, vem e leva-me, força, mata-me, arranca-me a essência e fica feliz, explode-me num rio de sangue espesso que corra quente na calçada imunda que os teus passos percorrem diariamente, mas por favor tira-me desta agonia…

domingo, 4 de novembro de 2007

Hoje


Hoje, aqui sentada enquanto distraidamente roo a ponta da caneta e olho para o papel pensando no que escrever, decido que o ideal é deixar-me levar ao sabor da corrente de palavras que vão surgindo lentamente numa mente quase em branco, deixar que a marca de tinta incerta decida o que fazer.
Hoje não sinto de todo. O vazio preenche-me sem que a alma me doa, simplesmente estou aqui, não estou bem, também não estou mal, respiro e tenho os olhos abertos, o coração bate e os segundos atropelam-se na sua dança metódica e bem ensaiada. Será que vivo agora?
Hoje não sou peça activa no jogo do mundo em que todos entramos, hoje sou observadora e permaneço no meu baloiço de madeira, vendo, analisando, perscrutando cada centímetro de espaço e cada gesto efectuado. Hoje assimilo informações, guardo mensagens, hoje aprendo e evoluo no silêncio e na inércia. Não estou feliz, mas também não quero estar. Estou sozinha, mas não quero companhia. Este buraco é tudo o que preciso, é tudo o que tenho e tudo o que me faz falta. Hoje, tudo o que desejo é ser indiferente, é passar ao lado, é saber que o mundo está demasiado embrenhado na sua vidinha monótona para sequer reparar na existência de mais uma máquina de sangue quente e raciocínio lento que hoje procura não ser parte dele.
Hoje, sou eu não sendo nada. Hoje, aprendo sem viver. Hoje não quero nada, mas sei que não vou por aí.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Sob a lua cheia


Assustado corri pelo bosque escuro, cuja densa vegetação me impedia de distinguir bem as formas. Eu ofegava, e desejava com todas as minhas forças que te tivesse deixado para trás, que a minha fuga apressada te tivesse despistado na noite, e que agora estivesses a salvo.
Finalmente, perdido no bosque, encontrei o meu local sagrado, o meu oásis perdido: um pequeno lago de cor azul esverdeada na qual a lua se espelhava, inteira e esplendorosa. Apesar de tudo estava bastante calmo, e entreguei-me seguro á minha sorte já que não havia como lhe escapar. Olhei a lua, cheia, bela e poderosa. Sentei-me, confiante, na pedra fria e escorregadia que era o meu abrigo de pensamentos e olhei para o relógio. Faltavam dez segundos para a meia-noite, o tempo urgia. Fechei os olhos e abstraí-me.
Não tardou a que sentisse a força animal e invasora a apoderar-se de mim. Como odiava o seu odor, a sua essência, o seu apetite carnívoro e incontrolável. Mas era tarde demais, e o Lobo estava de volta.
Senti a dor aguda de meu corpo mudar. Garras rasgavam os meus dedos e surgiam afiadas nas minhas mãos e nos meus pés, que eram agora patas fortes, firmes e peludas. A roupa rasgou-se aos poucos conforme o meu corpo se transformava e a dor atordoava-me, ao mesmo tempo que para tentar aliviá-la gritei para a lua. De repente deixei de gritar, e o meu grito transformou-se naturalmente num urro agudo e profundo, alto e vibrante. Já sentia as presas aguçadas na minha boca rasgada, o olfacto apuradíssimo, a visão penetrante e a sede de sangue. A dor da transformação mantinha-me num transe etéreo e quando senti que não aguentava mais, que estava fraco e atingira o limite, então tudo parou num instante sem deixar rasto.
Sentei-me de novo na mesma rocha onde meu corpo humano estivera, onde minhas roupas em farrapos ainda jaziam. Olhei o meu reflexo no lago, iluminado pela lua. Vi, com tristeza, meus olhos cintilantes, minhas orelhas pontiagudas, meu focinho imponente e minha pelagem farta e limpa. Todo o meu ser era mágico, majestoso e forte, e no entanto não o queria.
Ouvi, distante, um ruído de movimento no bosque. Escondi-me nas sombras para que pudesse atacar a minha presa de surpresa e saciar a minha fome, até que o aroma de fruto e flores invadiu minhas narinas e me desconcentrou por completo. Perdi a fome e o instinto predador, fui invadido pelo medo. Não podia ser verdade.
De repente surgiste, como incrédulo previra. O teu belo vestido negro estava rasgado e sujo da custosa travessia do bosque, e vi na tua linda face a expressão nítida de angústia por me teres perdido. Ajoelhaste-te junto ao lago, na mesma pedra que eu mesmo ocupara há segundos, e agarrada a um farrapo de minha camisa suada que ainda lá jazia, choraste. Cada uma de tuas lágrimas quentes e sentidas queimava a minha alma como ácido sulfúrico, enquanto me controlava, angustiado, para não me aproximar.
Foi só quando vi o brilho metálico de uma faca em tua mão e adivinhei o teu pensamento que cedi instantaneamente á vontade de me revelar e impedir-te de cometer aquela loucura.
Corri até ti e ao pores os olhos em mim não fugiste. Pelo contrário, olhaste-me nos olhos com doçura e soube de imediato que não precisava de te explicar, que já sabias de tudo, talvez até há muito tempo. Abraçaste-me com força e não resisti ao desejo de te morder e tornar-te como eu.
A dentada foi pequena, muito ao de leve, apenas o suficiente para que o meu veneno penetrasse no teu sangue. Não gritaste nem reclamaste, nem tão pouco te mexeste. De facto, pareceu-me até que não sofreste com a transformação que te alterou por completo e te transformou, sem dúvida, na mais linda loba que já vi.
Lado a lado, unidos pelo amor e pelo sangue, uivamos alto para a lua e corremos livres junto ao lago. A madrugada passou rápida e fugaz, como nunca antes fora, ou pelo menos não me parecera. Até que no firmamento surgiu o primeiro raio de sol, e, lado a lado, sentimos a maldição dissipar de nosso corpo e alma como nevoeiro. O sol surgiu, laranja, e estávamos juntos á beira de lago, de mãos dadas, nus e sós, mas felizes.
Como que demonstrando que me perdoavas a traição que fiz ao morder-te e amaldiçoar a tua vida eternamente, como a minha já estava, beijaste-me calorosa e profundamente, senti o calor do teu corpo junto do meu, tua pele macia deslizava em minhas mãos.
“Amo-te”, foi a única palavra que disseste com ternura, a mesma que, apaixonado, repeti olhando-te nos olhos e perdendo-me neles, como num imenso mar profundo e desconhecido. Depois, mais livres e soltos que nunca, tomámos banho. A vida eterna começara, e a partir daquele momento estávamos os dois juntos, sós, para sempre.