terça-feira, 22 de setembro de 2009

Reflexo

Vi o meu reflexo na água. A superfície ondulada dava ao meu rosto uma vida que ele não tinha, tornava os meus olhos brilhantes e rasos de lágrimas que deles não escorriam. E no entanto aquela parecia mais eu. Quase conseguia lembrar-me de como o meu cabelo ganhava luz e vitalidade ao vento. Os anos passaram e eu cresci, quase sem dar conta da mulher em que aos poucos o tempo e o destino me tornavam, moldada pelo meu jeito de criança. Aquela menina que um dia caíra ao lago para poder ver o seu reflexo não existia mais, e não tive tempo para me despedir dela. Toquei a água com a ponta dos dedos, senti o frio atravessar-me o braço e envolver o meu coração. Está quente cá dentro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Máquina de guerra

Os olhos fitam o frenesim do mundo enchendo-se de solidão. A multidão corre apressada chocando com a humanidade e o isolamento no caos é inevitável e doloroso. É-me impossível não sentir que sou um ponto nulo numa soma de parcelas cujo total não ultrapassa certamente a unidade. Ainda assim sofro por isso, sinto falta da proximidade e do calor daqueles que são formados pela mesma carne e osso que eu, que me rodeiam numa frieza de aço mecanizado e se assemelham a maquinaria pesada. O sangue que lhes corre nas veias tem o cheiro e o poder do verde, a aparência do cinzento. Não sou assim. Vejo a paisagem colorida das janelas dissolver-se numa massa incolor, rígida e impenetrável. O cheiro do perfume dos outros fundiu-se com o fumo dos carros, em vez de risos e vozes ouço o retinir grave e compassado dos motores. Não posso mais, não quero mais. Isolem-me no vazio natural mas tirem-me da solidão da gente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O domador de bonecas (parte 5)


A um canto aninhada, encolhida sobre si mesma envolvendo as pernas com os braços, Marta estava aterrorizada. Tremia e choramingava. Não conseguia parar de fitar os rostos frios e sem vida que a atormentavam de todos os cantos parecendo gritar o seu nome. Não sabia nem queria imaginar o que poderiam conter as caixas e sacos que jaziam ao seu lado na estante, impávidos, emanando um fedor a sangue. À mísera luz azulada daquele candeeiro, chegava a parecer uma das próprias bonecas, em tamanho real, que ganhara vida e esperava a sua mutilação.
Tão perdida estava nos seus pesadelos e nas igualmente terríveis imagens que a rodeavam e atormentavam que não soube quanto tempo passou até que ouviu ranger uma porta mal oleada. Um aperto maior dominou o seu coração de modo a que, de tanto saltar, ele parecia querer sair pela boca. Rangeram umas escadas nas quais não tinha ainda reparado, escondidas na penumbra por detrás da estante enfrente àquela em que se encontrava sentada e acendeu-se uma forte e brilhante luz branca na cave. Primeiro viu os pés que soube serem do homem manco. Tinha calçadas umas botas rotas e gastas que deixavam também visíveis umas meias sujas por debaixo. Dos pés às pernas pouco durou, e logo o homem aparecia inteiro no seu campo de visão, com a mesma mochila que a levara a segui-lo.
De perto ele era ainda mais horrendo que de longe. A sua cara era digna do pior dos vilões do cinema. Nela habitavam todo o tipo de cortes recentes e velhas cicatrizes, juntamente com sujidade tanto de pó e comida como de sangue. Mas as próprias feições em si, se alguma vez haviam sido belas, há muito o tinham deixado de ser. Os olhos eram pequenos, escuros, brilhantes, frios e impenetráveis, como os de um animal selvagem. A barba densa e o bigode tapavam a maioria do rosto, deixando apenas de fora um nariz grande, maçãs do rosto com vestígios de bexigas e uma testa quase inteiramente ocupada pelas sobrancelhas. O cabelo, mal cortado e colado em madeixas de tão sujo, deixava aparecerem orelhas grandes, uma das quais a que faltava um bocado que parecia ter sido arrancado por uma dentada. A pequena conseguia também ver-lhe as mãos, saídas dos punhos sem botões da andrajosa camisa. Eram demasiado grandes para a altura do homem, e estavam também elas sujas e repletas de cortes. As unhas, enormes e amareladas, pareciam garras de lobo. Mas foi a enorme faca que lhe saia como uma extensão da própria mão que fez com que Marta, paralisada de medo, não conseguisse mais conter o grito que lhe aflorou á garganta.
Paulo foi invadido pela surpresa quando viu sentada na sua estante de troféus uma criança de pijama e olhos inchados de chorar. Não sabia como raio ela lá tinha ido parar, mas uma coisa era certa, tinha de sair, já, depressa e calada. Não soube o que fazer nem o que pensar, aquele momento parecia-lhe um insólito.
O homem estava parado, a olhar para ela, a uma distância de poucos metros que deixava Marta totalmente exposta. Mas ele parecia saber tão bem o que fazer quanto ela. Num rasgo de esperança passou-lhe pela cabeça a ideia tresloucada de sair de novo pela janela e correr sem parar todo o caminho que a separava de casa, do calor do abraço do seu pai. E assim que o pensou mais depressa o fez. Largou a correr para o sítio onde sabia estar a janela, pulou e agarrou o parapeito sujo à primeira.
Os olhos quase lhe saltaram das órbitas quando viu a miúda num ímpeto acelerar para a pequena janela da cave. Mas ela cabia ali? Onde pensava ela que ia? O que raio se estava a passar? Tinha de a agarrar enquanto era tempo.
As mãos agarram-na pelos tornozelos enquanto Marta fazia força com os braços para se conseguir içar inteira para fora daquele lugar. Marta gritou e esperneou tentando livrar-se dos dedos que a seguravam firmemente, mas de nada adiantou, estava bem presa e o homem começava a puxá-la com força para baixo. A rapariga ficou com as mãos arranhadas e ensanguentadas de lutar por conseguir ficar agarrada ao parapeito, mas em poucos segundos estava já nos braços do homem, que a virou de frente para si e a fitava directamente nos olhos. Marta gritou e gritou, cuspiu-lhe a cara e mordeu-lhe os braços, mas ele parecia indiferente à dor e nem sequer a sua expressão se alterava quando os golpes eram desferidos.
Paulo não sabia o que pensar acerca da pequena criatura que se deparava à sua frente, frenética, decidida a magoá-lo e a conseguir fugir em liberdade. A criança estava cheia de medo e temia por todos os lados, mas lutava com a força de um guerreiro. Demorou a dominá-la. Mas não podia mais permitir que voltasse a tentar escapar. Marta tinha o destino traçado: ia ser amarrada.

Quem dera...



As minhas certezas são como bolas de sabão: redondas, belas, cintilantes. Inúteis e fugazes. Com a minha cara nelas reflectida, brilham ao sol, dançam durante uns segundos, o mundo parece parar nelas mesmas... e então, quando menos se espera, rompem numa chuva de gotas matizadas pelas cores do arco-íris. Foram luz. São vazio.


Ninguém segura uma certeza. Quem a tenta prender logo a transforma em passado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Luxúria líquida




Para uma pessoa muito especial. Treze meses completos. Muito obrigada @
10.08.08



A claridade ténue e mística do quarto era penetrante e doce aos sentidos. Com nada mas o teu respirar servindo de batida ao meu ansioso coração, agitado dentro do peito, deixei que os olhos se habituassem à pouca luz e segui languidamente até à cama, onde já te encontravas, tranquilamente me esperando.
Dentro de mim um turbilhão misturava os sentidos e as emoções, uma força cadenciada impulsionava o meu corpo para junto do teu, como se ele tivesse vontade própria e a minha mente não só o permitisse como o venerasse. Não tinha nem queria ter controlo sobre mim, gostava de permanecer eternamente naquele transe hipnótico que nos unia em perfeição. O teu toque, a tua pele macia, o teu cheiro tão pessoal, forte e dominante. As minhas mãos presas como ventosas aos contornos rijos do teu corpo, percorrendo avidamente o peito, a barriga, as costas, desejando mais e mais. Senti o desejo aumentar num apogeu de luxúria e paixão. Luxúria líquida a correr nas veias, vertendo dos lábios, palpitando no copo e percorrendo as entranhas.
Neste momento e neste lugar está centrado o mais vedado e misterioso enigma do universo, e é meu e teu, nosso e da força inabalável que nos une, do turbilhão de acasos inexplicáveis que nos envolve e caracteriza. Os teus lábios molhados conhecem as curvas do meu corpo. A tua língua partilha a avidez quente da minha, e elas envolvem-se com a naturalidade de quem respira e quer viver. A pele arrepiada do meu pescoço ao passar da tua boca pede ao peito que gema e eu estremeço, sabendo que não estou louca mas que pouco falta, que, se o ficar, terá valido muito a pena.
Sinto as minhas pernas contorcerem e apertarem-te mais ainda contra mim, sei que os meus olhos fechados vêm mais do que até agora alguma vez fizeram. Levo a mão aos teus cabelos fortes, ondulados, indomáveis como tu. Acaricio-te, provoco-te, intensifico a excitação partilhada naquela cama e sinto o gosto intenso do teu prazer revirar-me de dentro para fora. A onda de calor e paixão enubla e entorpece ao mesmo tempo que sei que são os teus braços que puxam o meu tronco para o teu peito e nele encostam suave e delicadamente a minha cabeça que ainda gira.Relaxo de dedos entrelaçados nos teus, prestando toda atenção à textura da tua pele, ao ritmo do teu respirar. Sinto a bomba frenética que batia no peito acalmar até ronronar, feliz. Sorrio sem querer. A realidade volta a ser nítida, entre nós não existe espaço para pudor, vergonha, mentira, culpa. Não há necessidade de falar quando os meus olhos fixam os teus, mas ainda assim dos meus lábios solta-se um “Amo-te” que significa mais do que alguma vez saberei explicar. Traçarei o meu rumo a par com o teu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O domador de bonecas (parte 4)


Marta, escondida nas sombras, teve medo. Percebeu, com o passar das nuvens, que o seu esconderijo a traía mais vezes do que aquelas que seriam sustentáveis. Procurou melhor refúgio nos troncos, e à falta de resultados visíveis, optou por dar a volta à casa. Não se poderia manter ali, tão vulnerável àquela janela na qual habitava agora, como apresentador de televisão, o homem que era objecto dos seus mais sombrios receios.
A casa era pequena. A rapariga viu a degradação nas frechas de uma das laterais, no musgo que acumulavam, passivas, as traseiras do mórbido aglomerado de tijolos. Já estava na última parede quando reparou num pormenor. Daquele lado havia, bem junto ao chão, uma janelinha rectangular, minúscula, para aquilo que parecia ser uma cave. Marta reparou nela porque de dentro vinha uma luz, azulada, intermitente, que parecia de outro mundo e estava em tudo fora do contexto. A avaliar pelo som o homem ainda estava na sala, e ali fora não havia protecção. Além do mais estava frio. E queria a sua boneca de volta. Não hesitou mais.
Enquanto se esgueirava até à janela Marta lembrou-se da noite que perdera a mãe naquele trágico acidente de automóvel. Ainda conseguia ouvir o seu afiado grito agudo. Ainda conseguia ver, como viu pelo espelho retrovisor interno, o seu olhar angustiado e aterrorizado. As lágrimas vieram-lhe aos olhos, e o desejo de recuperar aquela boneca aumentou.
Encolheu-se e entrou pela janela, que não passava de um buraco com restos de vidro já alisados pelo tempo, de uma só vez.
O espaço era aterrador. Mais sombrio, de longe, que o decrépito esboço de habitação visível do exterior. Havia uma mesa de metal ao centro, rectangular, vazia e imaculadamente limpa. As paredes estavam cobertas de estantes que iam do chão ao tecto, na sua grande maioria ocupadas. Por bonecas.
Bonecas decapitadas e com as cabeças, belas e trucidadas, em frascos de álcool. Bonecas sem membros, presas em artifícios que corrompiam as poses para as quais foram criadas e as tornavam diabólicas, possuídas. Bonecas em esgares de raiva, de ódio, de luxúria, de traição. Um monte de imitações de mulher, todas inicialmente belas, transformadas em monstros de cabelo eriçado e feições desumanas. E, naquilo que parecia ser um placard por detrás da porta, jaziam fotografias. Do modo de como cada uma das bonecas fora conseguida.

***

Com nojo, raiva e ira, Paulo arrancou a boneca da mochila pela cabeça e partiu-a no chão. Parecia que ainda conseguia ouvir o comentário do polícia naquele mesmo dia, quando esperou o seu veredicto na esquadra. “As mulheres são iguais às bonecas de porcelana. Lindas e frias. Pena que também se partam. Esta era pêga na esquina da 24. Toda a gente sabia que tinha um filho.”. Fora levado pouco depois para um reformatório, de onde fugira depois de causar vários problemas, alguns graves, com quem se cruzasse no seu caminho.
A sua obsessão por bonecas começara de imediato. Na única noite que passou no calabouço teve o sono atormentado pelo rosto e corpo de sua mãe transformado em loiça. Os olhos brilhantes de vidro choravam sangue negro, inexpressivos. Apenas as gotas grossas que escorriam lentamente pelo rosto pálido e delicado davam vida à sua imagem, deixavam marcas e tingiam-lhe a roupa, até toda ela se transformar numa poça negra. Os sonhos não pararam, transformaram-se em desenhos mórbidos e incompreensíveis de bonecas lindas mas miseráveis, vitimas de todo o tipo de abuso, condenadas à desgraça.Quando descobrira ao largo daquela pacata cidade uma casa vazia rodeada de sombras soube que aquele era o sítio ideal para si. Esperou vários dias, observando por entre as árvores, até decidir habitar o cubículo. Vivia ali há anos, sem água, com luz obtida por ligação directa e ilegal aos postos de abastecimento mais próximos. Alimentava-se de restos que encontrava, por vezes na rua, outras em mesas de cafés ou restaurantes já sem clientes mas ainda sujas. Tomava banho em fontes e bebia delas, também. Colhia roupas do lixo. Ninguém o via, porque ninguém queria reparar em tamanho desgraçado, feio, sujo e miserável, manco e pobre. Não se lembrava da última vez que abrira a boca para falar que não consigo mesmo. E coleccionava bonecas de porcelana, de certo modo. Era um nada vivo, carcaça de gente…mas respirava.

Megalomania



Acordei com o fulgor epiléptico de quem pula em vez de andar. Toda eu era alegria e vontade de viver, cada lufada de ar inalado gritava a sua força nos meus pulmões, cada batida sonante do meu coração quente era lenha de uma fogueira sem fim cujo fogo crepitava sabendo que tudo girava à sua volta.
No meu olhar residia a chama do sentido. Não havia ponta desatada e solta no novelo em que se tornava, dia após dia, a minha vida ainda breve. O relógio gira, e eu giro com ele, deixo o cabelo solto ao vento e monto a cela desde touro bravo do qual poderei cair, mas que não largarei enquanto o sol brilhar.
Sei que o meu corpo está entrelaçado no teu, que consumo e emito raios de paixão. As minhas curvas pedem as tuas mãos, e o teu toque exige mais do que o real. Ah, louca seja se essa for a vontade dos deuses, sou desvairada mas sou feliz, estou completa e realizada.
O espelho mostra as asas que me nasceram nas costas, longas e afiladas, brilhantes, reluzentes, velozes. Elas vibram e oscilam, como quem quer mostrar o que vale, e eu olho-as deliciada. Cada pedaço de mim é agora orgulho do que conquistei, do que sou, daquilo em que me tornaste, da potencialidade do que me poderei vir a tornar.


Sei que a Terra gira na palma da minha mão, que num sopro ela sai dos eixos e, como uma pena, fica suspensa no infinito, frágil bola de sabão, anda até rebentar. O mundo inteiro de pernas para o ar.

...fez-se luz


Sem norte ela caminhou, dias a fio, sem saber por onde ia. Olhou sem ver, perdida em doces recordações, viveu sem deixar pegadas na areia. Procurou, incessantemente, o brilho imenso dos seus olhos em qualquer outro ponto do universo, sabendo que nem o mar alguma vez o igualaria. Reviveu na sua mente cada recanto do mundo dele que a abarca com tanta ternura e cumplicidade. Quando o sentiu voltar, o círculo fechou. No canto dos seus lábios nasceu, doce, um sorriso sincero e sentido. Ressuscitou, pura, no calor do seu abraço apertado e seguro. Soube sem pensar nem querer que o amor que sentia era maior que a própria alma, e era ditado por alguém maior do que ela. Não se importou e entregou-se, inteira. Ela é feliz, no fundo, ela é muito feliz.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O domador de bonecas (parte 3)



Paulo vivia com a mãe, Sara, nas águas furtadas de um prédio localizado perto do centro da cidade. Segundo o que a mãe lhe contara há anos, quando ele notara a ausência do pai e lhe perguntara acerca do seu paradeiro, era órfão de pai. Este morrera tragicamente num acidente de viação. O assunto devia magoar ainda a sua mãe, porque esta desviava sempre o olhar quando ele vinha à baila. No fundo, não interessava, não era preciso deixar a mãe triste. Sara era uma mulher linda, sempre bem-disposta, que lhe dava tudo para o fazer feliz. Trabalhava de noite, fazia limpezas numa estacão de rádio. O horário era mau, mas dava-lhe todo o dia para cuidar de Paulo. Ele tinha uma adoração sem limites pela mãe. No fundo, quem nunca perdoara fora o pai, por ter partido sem o conhecer.
A ausência da mãe era muito custosa. Ela deitava-o, fazia-lhe companhia até ele adormecer (ou fingir que adormecia) e depois dava-lhe um beijo na testa, saia sem fazer barulho e apagava a luz fraca. A porta de casa batia e ele sabia que ela tinha ido trabalhar. “Ela volta…” era o que dizia a si mesmo, todas as noites. E ela voltava, cansada e de lágrimas nos olhos, todas as manhãs, acordava-o, dava-lhe banho e pequeno-almoço e levava-o à escola, enquanto se esforçava por sorrir e fazê-lo sentir bem.
Um dia, já com 7 anos, estava deitado na cama mas não conseguia dormir. Os vizinhos estavam a discutir furiosamente e os gritos e estoiros de loiça a quebrar ecoavam pelo prédio, incessantemente. Pouco passava da meia-noite quando outras vozes se juntaram ao rol. Estranhamente, reconheceu a de sua mãe. De imediato, levantou-se da cama, correu para o hall da entrada e encostou o ouvido à porta. Para além da voz de Sara, ouvia-se também uma voz grossa e torpe de homem já muito embriagado.
“Anda cá, porca, não penses que me esqueço de ti!” dizia o homem.
“Larga-me! Saí da minha vida, já te disse, vai-te embora!” respondia a voz entrecortada e ofegante da sua mãe, enquanto subia a escada.
Sara atingiu o patamar e Paulo, de olhos esbugalhados pela surpresa e pelo medo, abriu-lhe a porta. Quando deu conta de que o filho a olhava, chocado, chorou. As suas roupas em nada pareciam as habituais. Estava quase despida, com uma saia muito justa que mal lhe tapava o rabo e lhe deixava as coxas à vista debaixo de collants de seda esgaçadas e um top curtíssimo e colado ao corpo, sem sutiã por baixo. “Desculpa…” balbuciou baixinho, enquanto que o seu seguidor chegava, com dificuldade, ao topo das escadas.
O bêbado chegou ao pé de Sara e esbofeteou-a.
“É este?” perguntou-lhe “Responde-me, vadia! Ah, nem te dês ao trabalho. Já vi pelo teu choro que sim… Oh, tu aí! Ainda por cima és franzino, sais á tua mãe. Sou teu pai. Cliente tão assíduo desta cadela que a deixei prenha… Já passaram 7 anos e ela insistia em não me dizer onde estavas…tive de a seguir, pois claro!”
Paulo não teve reacção. Percebeu que também chorava quando sentiu o gosto salgado das lágrimas a escorrer-lhe por entre os lábios para dentro da boca, seca com o susto, com a dúvida e o ódio por aquele estranho. De repente viu a mãe atirar-se àquele homem de quem nem sabia o nome. Ele estava bêbado, é certo, mas era muito mais forte que ela. Numa questão de segundos dominou-a e, sem pensar duas vezes, atirou-a pelas escadas. Paulo, inerte, de olhar parado, distante, e semblante gelado, nada fez. Ficou parado, enquanto o bêbado se inclinava no vão da escada para ver os efeitos do seu golpe. O baque do corpo da mãe a rebolar pelas escadas e o estalar de madeira velha e podre parou.
“Olha que a avaliar pela poça de sangue que se está a formar à volta dela ficámos sem o lado feminino desta família tão unida… É pena…era uma gaja boa e uma boa gaja!”
Paulo sentia o cheiro ácido do álcool de longe, aliás, este já empestava todo o patamar. Não sabe que força o moveu quando, enquanto o homem se debruçava de novo, correu para ele e o empurrou com todas as suas forças. Cedo as mãos se lhe mancharam de sangue.

O domador de bonecas (parte 2)


Paulo chegou á sua casa bastante contente com a colheita da noite. Há meses que tudo o que conseguia era uma média de duas bonecas por semana, roubadas discretamente a miúdas histericamente felizes. “Nem sabem do que riem!”, pensava ele das pequenas criaturas irrequietas, de riso fácil e olhar brilhante. Crianças repugnavam-no. De resto, adultos também. A humanidade era uma massa homogénea, não havia alma que se safasse a tal. Mas os mais pequenos, de tão frágeis, necessitados e, ainda por cima, felizes, eram-lhe totalmente insuportáveis. Talvez por isso tivesse tomado a decisão de os assaltar e ouvir, ao longe, chorar as suas pequenas perdas. Por isso e porque precisava das bonecas, claro. Meteu a chave à porta e entrou.
Durante o caminho ele nem se apercebera do pequeno vulto que o seguia, tiritando de frio e de medo. Andou atrás daquele homem saído directamente das sombras durante meia hora e já julgava que estava perdida e que ele não tinha um destino, quando por entre as árvores dum pequeno bosque que existia na periferia da cidade viu os contornos ténues de uma casa térrea. Marta ficou ainda mais assustada quando viu o lugar onde aquela perseguição a levara. A casa era medonha. Não estava pintada, e por entre o tijolo e o cimento cresciam ervas. Do telhado não se sabia se as telhas tinham saltado ou se este simplesmente fora feito sem elas, tal era a quantidade que faltava. Não havia jardim, vedação, nem nada que se parecesse. A casa surgia, como por artes mágicas, no meio duma clareira, e a dimensão do espaço era restringida às paredes da mesma. A tremer mais ainda mas disposta a não abandonar aquele lugar sem a sua boneca, Marta escondeu-se atrás de uma árvore e espreitou o que se passava do interior da casa, através da luz acesa no interior vista por uma pequena janela, de vidro tosco quebrado.


***


Paulo acendeu a luz, pousou a mochila na sua poltrona esfarrapada e abriu a porta do frigorífico. Nada comestível e ainda menos no prazo, como de costume. Tirou uma cerveja já a meio que se encontrava entre uma sandes em pão bolorento e um prato com vários caroços de maçã mal aproveitados. Bebeu-a sem parecer reparar na, ou lamentar a, imundice em que vivia.
Quando acabou atirou-a para o chão, e olhou, sorrindo, a mochila ainda cheia que o olhava da poltrona. Uma das bonecas tinha ficado de cabeça de fora, quando ele fechara a mochila. Olhou com desprezo para aquele despojo de feições humanas sorridentes que, de olhar vazio, o fitava. Loira, de longos cabelos encaracolados, tez branca imaculada e olhos verdes, grandes, a boneca era muito parecida com a sua mãe. “Puta.” pensou, afugentado a vaga lembrança que o invadira. Sentiu de imediato as fortíssimas dores de cabeça e reviveu os duros momentos que tinham para sempre mudado o rumo da sua vida.

domingo, 30 de agosto de 2009

O domador de bonecas (parte 1)


Envolto numa densa nuvem negra de fumo, ele coxeou pelas sombras sem sequer olhar para trás. Quem o seguisse entenderia que não queria ser visto pelo modo como evitava as luzes e as multidões, mas a sua figura atarracada e as suas roupas andrajosas faziam com que os olhares que caíssem em si fossem de imediato arrebatados para qualquer outro lugar. Ele foi seguindo, no seu passo lento mas determinado, rumo à velha loja de brinquedos da avenida. Era tarde e esta estava fechada, e a rua, que emanava uma elegância proveniente do antigo, perdia o seu encanto de noite.
O homem parou diante da montra e levou o cigarro á boca para um longo bafo, enquanto admirava o brilho das locomotivas miniatura e as vivas cores das bonecas de pano. De repente virou-se, atravessou a casa pela lateral e, se alguém o estivesse a espiar, tê-lo-ia visto a tirar do bolso um frasco e a abrir sem dificuldades a porta das traseiras. O cheiro a ácido no ar era notório, mas ele entrou e pareceu nem dar conta de tal.
A loja era uma modesta casa de 3 andares. Na cave estava montado um pequeno escritório com mobília velha e gasta, havia uma casa de banho e pouco mais. O rés-do-chão albergava a loja em si, bem recheada de todos os encantos com os quais a pequenada delirava e sonhava todas as noites. O primeiro andar era o chamado “hospital das bonecas”. Era um sítio onde se levavam brinquedos quebrados, bonecas partidas, carrinhos aos quais faltava uma roda. Ali era possível curar quase tudo e devolver às crianças não só o boneco intacto como também o sorriso no rosto.
Mas o homem não estava interessado no encanto mágico do lugar. Com o jeito de quem sabe o que quer, não passou do espaço da loja em si. Foi até á secção que lhe interessava, abriu uma mochila suja que levava ao ombro e nela despejou todas as bonecas de porcelana que conseguiu. Não demorou nem cinco minutos. Com a mesma calma e indiferença com que entrou, fez o exacto mesmo caminho de regresso e abandonou a loja, sem o intuito de lá voltar a entrar.


***


Marta estava desfeita. Não podia simplesmente acreditar que tivesse perdido a sua boneca de porcelana. Havia uma semana que a procurava incessantemente, certa de que quem quer que a encontrasse lha devolveria sem pestanejar, certa de que ela mesma não ia ser desleixada ao ponto de se esquecer dela no parque, nem na escola. Ela tinha de estar em algum lugar, e ainda ninguém a tinha visto. Era só isso. Com cada dia menos convicção e mais tristeza no olhar, a menina de 7 anos procurava a boneca incansavelmente, a cada dia a esperança se tornava mais vã, difusa.
Nessa noite não conseguia dormir.Com a antiga fotografia de sua mãe fechada na mão, foi até à janela e olhou a noite, simplesmente o vazio. E foi então que o viu. O homem cambaleava na rua, mal sendo visível por entre as sombras das árvores não fosse a fraca iluminação e o fumo cinzento que envolvia a sua silhueta. “Estranho…” pensou. Nunca tinha visto aquela figura. No cruzamento, sem sombra que o ocultasse enquanto atravessava a estrada, a lua ficou a descoberto e iluminou o homem. Com um grito de surpresa e o bater do coração descompassado, Marta viu uma cabeça de boneca de fora da mochila do misterioso homem. Uma boneca de porcelana linda, tal como a sua. Não pensou duas vezes. Em silêncio, sem avisar o pai, saltou para dentro de um casaco e saiu sem fazer barulho. O seu instinto dizia-lhe que era o caminho daquele homem que a ia levar á sua boneca, tão especial.

sábado, 29 de agosto de 2009

Caneta de sangue

Não sei quanto tempo estive parada, a definhar por dentro, à espera que algo me despertasse, me alentasse a fúria de escrever. Quantos mais dias, meses, passaram, mais carcomida me senti, miserável e oca. Até que não aguentei mais o vazio.
Li. Li durante horas a fio, páginas atrás de páginas, todos os dias, até a vista me pesar e o sono levar a melhor. Li com a sofreguidão fugaz de quem passou demasiado tempo sem se alimentar. Senti cada alma inscrita nas folhas ser transmitida para dentro de mim, senti finalmente voltar o latejar de vida nas minhas veias. Ri alto sem motivo, enquanto a minha essência se misturava com aquelas que com o seu sangue escreveram as suas histórias. A cada frase sentia a minha força aumentar, o meu conhecimento crescer. Li com a sede vampírica de quem precisa, e depois com o prazer egoísta de quem consome.
Deitada na cama, exausta e cheia, vi o céu ficar coberto de nuvens espessas tingidas de sangue. Vi o arrastar lento e pesado das pessoas nesta cidade dos malditos, como em qualquer outra. E então decidi escrever.
Quem faz da escrita um ofício com o propósito de ser tornado público sabe que vende a alma por dinheiro que é sempre pouco, ou por vaidade que é sempre demais. Mas a tentação é grande e a carne é fraca. Entreguei-me às folhas em branco com fúria, sabendo que nelas ficaria aprisionada uma parte de mim que, embora incompleta, era real. A tinta permanente escrevi aquele que sabia ser um legado de sangue, o preço de querer imortalizar a alma ainda em vida, aos pedaços por entre papel e encadernações.


Quando acabei estava tonta, mas sentia-me plena. Alma por alma, dente por dente. A maldição de ler estava paga. Aquele punhado de folhas continha, imaculado, o meu pescoço pronto a ser mordido. Deixei-me cair. O pior havia passado.







«Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue fica a morar em Mim e Eu nele» Evangelho segundo S. João 6,51-58

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mente


Mente. Mente esta que me preenche, me invade, mente que me domina, mente que sabe o que penso, que dita o que faço, mente que me indica a razão, que me doma, que me cria, que faz de mim quem sou.
Mas, mente que me mente. Mente esta que me engana, que me perturba e distrai, mente que entorpece os meus sentidos e me cega o coração. Mente que, no fundo, me fecha o espírito. Mente, minha mente mente. Mas eu sei.
Mente culta, mente perversa, mente palpitante, mente turva, mente que não dorme, mente selectiva. É tempo de pôr na mente coração.


Mente esta mente, (eterna)mente.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A ilusão da saudade


Por vezes estamos juntos e não te tenho, tenho-te perto e não te sinto, não posso dizer que não te vejo mas não me preenches.

Há um vazio em mim e, de noite, é preciso que a saudade desenhe na minha mente as tuas linhas perfeitas, cada traço do teu rosto, a tua silhueta exacta, o teu perfil delicado.


É preciso que a tua ausência se faça sentir de um modo tão abstracto que te personifique como um desenho no ar, imagem mental nítida sobre uma paisagem desfocada.


Mas é preciso, também, que seja uma invasão de frescura e vida para os meus sentidos. É preciso saudade para que em mim desperte uma força misteriosa domadora, uma presença vital que urra.


E quando surges és tão múltiplo e imprevisto que nunca te pareces com a imagem mental que traço, e tenho de fechar os olhos para te ver com clareza.




Tive saudades tuas. Tive, em cada segundo passado noutro lugar que não os teus braços, necessidade de sentir o teu cheiro, o teu toque, o teu beijo. No meu pensamento desenhei-te mil vezes, tracei mil planos, vivi mil momentos contigo. Enganei a saudade iludindo a razão, e fingi a mim mesma que podia atenuar a paixão.


E de repente vieste de novo, invadiste cada pedaço de mim, tomaste-me por completo e vivi. De repente todos os sonhos criados se rasgaram em pedaços e arderam, de repente nada mais senão o presente e um tormento de sensações e sentimentos. Só aí, quando já não reinava a saudade mas sim a realidade, soube o quanto senti a tua falta. Só aí dei conta de que não faz sentido nenhum dia sem que sejas parte de mim. Só aí vi o quão efémeras são as dúvidas e as incertezas, o quão frágeis são as ilusões face á força da tua presença no meu mundo. Preciso de te sentir, mas juntos somos unos, plenos, invencíveis, intocáveis, eternos.




(Sei que vai voltar a solidão acompanhada, a "dor de pensar", a saudade sem distância ou tempo que possam parecer justificá-la. Só nós dois sabemos. Sei que vou voltar a pintar quadros de nós dois. Mas também sei que a cor só vai voltar ao meu universo no dia em que a saudade evaporar. Até lá, estás á distância de um pensamento.)




Faz acontecer, que eu faço valer a pena.


Amo-te @

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Tudo

Deste-me a mão.

A vida segue no seu passo seguro, ao mesmo tempo sempre igual e totalmente discrepante. Vejo segundos arrastarem-se até à eternidade, vejo horas passarem num estalar de dedos, penso em dias que demoraram séculos a chegar, olho para trás e o passado distante foi, na verdade, ontem.
Já cai, já sorri, já desesperei, já respirei liberdade, já sufoquei, já abracei o mundo, já gritei por socorro, já sequei lágrimas alheias, já chorei a minha própria alma.
Os problemas não desaparecem, os obstáculos nunca sairão do caminho, vou sempre ter raiva daquilo que me deixa impotente, vou sempre parar na teia da rotina banal. Vou voltar a cair, vou de novo gritar em silêncio de cabeça erguida ao céu, joelhos no chão e punhos cerrados. Rolarão pelo meu rosto mais lágrimas, voltarei a sentir um vazio por dentro, nunca vou aceitar as correntes que sempre me vão perseguir.
Mas agora é diferente. Agora tenho aquilo de que sempre precisei. Deste-me a mão, sorriste para mim, aqueceste-me por dentro, derreteste o gelo que me bloqueava a humanidade. Muito mais que um amigo, muito mais que um amante. O amigo, o amante. O meu homem, aquele que eu quero, aquele que vale a pena, aquele que é imperfeito mas ideal. O meu sonho. Tudo o que podia pedir, muito mais do que ousei, algum dia, imaginar.
És parte de mim. És vital, crucial, único, especial, insubstituível. És tudo o que preciso para olhar o mundo de frente, vê-lo a preto e branco, e sorrir. Afinal, és tu quem pinta o meu cenário, quem enche de cor o meu quotidiano. Preciso de ti.


Força. Motivação. Asas. Estímulo. Apoio. Protecção. Amor. Carinho. Sinceridade. Sonho. Exemplo. Ídolo. Beleza. Inteligência. Fé. Paixão. Paz. Tranquilidade.


Tudo isto e muito mais. Não te traço horizontes. Amo ver como chegas sempre mais longe.

Amo-te sem vírgulas, sem ponto final, sem pontuação.
Amo-te em círculo: sem inicio nem fim.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um pensar que se impõe

Acordei de repente, mais uma vez, a meio da madrugada escura, sem motivo aparente para este súbito despertar. Não tinha os olhos turvos de sono nem o raciocínio lento de quem é arrancada dum sonho profundo, não bocejei nem procurei anichar-me comodamente na posição retorcida do costume para voltar a dormir. Já conhecia este momento.
Mortifica-me a noite neste quarto claustrofóbico e atulhado de memórias. Durante o dia, rodeada de gente que aparenta correr de lugar em lugar com propósito fundamentado, não custa ser só mais uma: basta expor o corpo, que a alma se esconde automaticamente. Mas, de noite, não há o cheiro hipnótico da multidão e do fumo dos carros, o ruído demasiado alto de vozes que a outras se sobrepõe e de máquinas cinzentas, não há turbilhão de cores, aromas, sons, toques…não há nada que encha a cabeça e iluda o pensamento.
Acordo só, tal qual me deitei, alheia às sombras difusas e ao silêncio mórbido. Acordo, sento-me de costas encostadas à cabeceira da cama e pernas encolhidas entre os braços e resigno-me: não há como negar alguns minutos de consciência à mente, só eu comigo, reflexo erróneo num espelho que tanto distorce.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O (ciculo perfeito, determinante definido)


O extraordinário surge quando a respiração quebra. Quando a metamorfose do mínimo faz de cinzas gigantes, quando dramas esfumam frente a sorrisos, quando um momento conta para a vida, quando o sentimento fala através das mãos.
Especial é a imagem do vivido que sem licença fica gravada na memória, é a chama do olhar que a chuva não conseguirá nunca apagar. Especial é ter certezas num sentido e ainda assim deixar o impulso guiar para o outro, e, no fim, sentir o peito romper de orgulho e felicidade.
Único é aquilo que salta à vista num mar de clones, é aquele que faz com que o coração salte pela boca, é o reconhecível de olhos fechados e pulsos acorrentados, é um cheiro inconfundível.

(Depois de ti, os outros serão reticências.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Quis escrever

Quis escrever, hoje, por fim, por serem já demais as memórias que colecciono desde que o fado nos cruzou os destinos ao unir os nossos lábios. Já não aguento, a alma que julguei ilimitada em expansão acusa a cada segundo uma sobrecarga perigosa de sentimentos, emoções, pensamentos, sensações.
Quis esconder, até agora, a intimidade por onde pude, por julgá-la excessivamente pura, bela, frágil. Fui guardando em segredo, á parte de palavras rebeldes que espontaneamente brotavam de minha boca, o efeito da tua presença no meu mundo. E, com cuidado e perícia, montei em pensamento um arquivo de nós dois, que dia após dia aumenta. Era tão mais fácil expô-lo da forma que melhor sei. Mas não. Afinal, que direito têm os outros de conhecer este jardim proibido, porquê dar forma ao transcendente de modo a torná-lo mais acessível e facilmente interpretável se, para nós, o importante é claro?
Ainda assim, hoje mudei de opinião. A fragilidade, existindo, não é mais que falta de força minha e, de resto, cada recordação é um motivo de orgulho.
Faltam-me as palavras. Desta vez não é meu o defeito, talvez não chegue mesmo a ser erro humano. Quis o destino que o sentimento fosse demasiado grandioso para ficar encerrado entre letras e sinais ortográficos. Perderiam as asas, o toque único, a beleza. As palavras que ainda não foram inventas, quem as tem o privilégio de sentir jamais ousará atribuir-lhes um nome.
Para nós, há aquela palavra que corre o mundo e move as massas, aquela que ninguém entende, define, compreende na totalidade. O verbo que circula na boca de te todos, sem excepção, sem por isso ficar banalizado. A teia intrincada de tudo e mais alguma coisa, do possível e impossível, a retrospectiva pessoal e colectiva actualizada ao segundo, o leme da humanidade: amar.
Amar é um círculo: entrando nele são muitas as voltas, infinitos os pontos possíveis de percorrer e indescritíveis (senão mesmo inatingíveis) os extremos…a única certeza é a de que, tal como não houve princípio, também não haverá fim.
Pensei, anteriormente, já me conhecer. Hoje sei que me descubro a cada dia, que o sentimento que nos une me reinventa e que na tua presença me renovo por dentro, lavagem instantânea de impurezas fúteis.
Quando os meus olhos te encontram, ma, céu e terra perdem grandiosidade face ao esplendor que o brilho que o meu olhar alberga. És-me tão precioso, tão íntimo, tão especial e incomparável que despertas, propositadamente ou não, o melhor e o pior de mim, com a naturalidade de quem respira.
Julguei, há tempos, que a felicidade e a plenitude estivessem numa vida composta por bons momentos. Hoje sei que a utopia não é a felicidade, mas a definição que lhe atribuí. Ser feliz é saber ultrapassar os obstáculos e deles retirar sabedoria, é ter prazer nas pequenas coisas e viver a vida de coração e alma aberta, um dia de cada vez.
Aceito-nos como somos, como estamos. Confio em ti como em mim, dou-te a minha mão e dar-te-ia a vida ciente de que não correria perigo. O tempo fará por nós o que só ele pode fazer e, nesta noite como em tantas outras já passadas ou ainda por vir, adormeço embalada na beleza do teu sorriso, alma inundada de luz, e, plena, grito ao mundo que te amo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Cavaleiro das sombras


Acordei de repente, exaltada, suada e assustada, com um enorme nó na garganta, que me estava a sufocar, e o coração a bater tão fortemente que a sua palpitação era visível em meu peito e o seu pulsar ecoava no meu cérebro e fazia o meu corpo tremer.
Reparei que a cama estava vazia: da almofada nem sinais, os cobertores e os lençóis jaziam inertes, cada um para seu lado, no frio chão de pedra do meu quarto. As suas sombras, os seus contornos irregulares, ameaçavam-me de longe, fitavam-me continuamente. As mãos gelavam-me lentamente, sentia-me a perder o controlo dos próprios movimentos. Aos poucos estava como que petrificada ali, enregelada, uma estátua de pedra sentada numa cama, com uma expressão de pânico no rosto lívido e o olhar perdido e vazio. Sentia o próprio ar sugar-me as forças, juntamente com cada parede rugosa, cada livro das estantes, cada quadro pendurado, cada escuro objecto imóvel.
Tentei gritar e o som não veio. Tentei de novo mas não funcionava. Fechei os olhos, com uma grossa lágrima salgada a escorrer-me lentamente pela bochecha, e no silêncio chamei mentalmente por ti, uma e outra vez. Não sei porquê, mas acalmei. Aos poucos voltou o calor. O coração retomou o compasso normal, as mãos já mexiam, e as sombras pareciam ondular como de costume. Apanhei os lençóis e tapei-me. Respirei fundo e dormi.


Pode ser loucura ou ilusão da mente, mas o facto é que quando voltei a pôr a cabeça na almofada senti o teu cheiro doce, e quando fechei os olhos foi o teu beijo que me devolveu a paz.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Com Pã, rumo aos Andes!

Estou sentada num comboio vulgar, talvez demasiado vazio, com um caderno apoiado nas pernas dobradas, óculos escuros postos, olhar perdido, focado na paisagem disforme. Tenho uma caneta Bic na mão, e distraidamente vou-lhe roendo a tampa, enquanto espero que a mente esteja suficientemente vazia para que as palavras surjam.
De repente, ao dar-me conta de que concentrar-me naquelas condições seria impossível, sorri. Do meu mp3 brotavam as notas puras, de timbre característico, da eterna e inconfundível flauta-de-pã. Se fechasse os olhos via, em câmara lenta, os Andes bem à minha frente, a sua harmonia plácida, a sua calma resplandecente, o seu esplendor sábio. Se os mantivesse fechados e me deixasse levar pela melodia que deslizava para os meus ouvidos podia ver bem na minha frente os rostos morenos dos ameríndios: o seu negro olhar penetrante e inteligente, o seu imponente e magro nariz adunco, o liso e preto cabelo comprido, ao vento, enfeitado com os mais variados pendentes coloridos.
Abro os olhos, na sombra das lentes que impedem a minha observação de ser percebida. À minha volta há prédios altos, uns luxuosos e pintados de fresco, outros bem antigos, rachados pelo tempo e corroídos pela humidade, entrecortando o céu nublado, de cor indefinida. Fecho os olhos e elas lá estão, as cabanas bicudas, de vários tamanhos, suas palhas e tecidos baloiçando ao vento sob um céu alaranjado que emana frescura…ouço a flauta.
De novo a minha realidade, as pessoas errantes cheias de pressa e alheias ao mundo: mulheres equilibradas em saltos finos, de maquilhagem carregada e cabelo estático, homens de fato escuro e gravata apertada, sapatos lustrosos, malas de linhas rectas, relógios no pulso. Em todos o mesmo olhar vazio, a mesma pressa de viver, o mesmo telemóvel no bolso, a mesma solidão acompanhada num caótico mundo cheio demais. Das canas de bambu chegava o som causado pela pressão do ar que as percorria: ao ritmo da natureza, leve como o próprio ar, fluido como a água, quente como fogo e próspero como a terra, o povo dos Andes dança num compasso afinado. Sobre os corpos dourados assentam roupas manufacturadas, todas iguais mas todas diferentes; nas peles a tinta colorida grava os mais diversos símbolos, cada qual com o seu significado. Dos pescoços, pulsos e tornozelos pendem adornos diversos, penas, pedras, contas… natureza talhada pelo Homem, para o Homem, à medida do Homem.
Sei que se abrir os olhos, mesmo sem desligar o mp3, posso ouvir o som estridente das buzinas, o motor dos carros, os alarmes dos aparelhos electrónicos, a voz distorcida pelas ondas que a transmitem. Mas prefiro mantê-los fechados, respirar fundo e aproveitar estes breves minutos de calma que me estão a ser proporcionados por alguém que nada mais vez que soprar para uma cana.
É esta, minha, a sociedade desenvolvida? Não será mais Homem aquele que sobrevive em harmonia com a natureza e dela usufrui que este meu, que a destrói e a aniquila em prol de metal escuro e frio?

Hoje, eu preferia dormir ao relento sob um céu estrelado, ouvindo o canto do rio e dos pássaros, olhando os contornos da montanha, pintando os meus sonhos com pegadas descalças, sentindo nos pés o áspero granulado da terra, nos seios o macio da pele trabalhada, no rosto o frio da noite, nas mãos o macio das penas…
Preferia mesmo.